Contos Dexaketo

Leazinha, a Danada

No bairro da Rua das Margaridas, Leazinha era conhecida por todos. Com seus dez anos de idade, cabelos cacheados que pareciam ter vida própria e um sorriso travesso estampado no rosto, ela era a personificação da energia inesgotável — e também do caos. Ela ia de soltar fogos de artifícios à meia-noite até esconder as chaves dos carros dos vizinhos em vasos de plantas… não havia limite para as travessuras de Leazinha.

Os moradores enfureciam-se quando ela passava correndo com seu carrinho de supermercado “emprestado”, mas logo suspiravam aliviados quando ela ia embora. Era impossível não admirar sua criatividade, ainda que fosse exaustivo lidar com suas peripécias diárias. “Essa menina vai acabar me matando”, dizia Dona Odete, a senhora que vivia na esquina da casa de Leazinha.

Mas um dia, algo mudou. Leazinha começou a sentir cansaço ao brincar e dores no peito. Sua mãe, preocupada, levou-a ao médico. O diagnóstico veio como um balde de água fria: uma doença cardíaca grave que precisava de tratamento imediato. O remédio necessário custava uma pequena fortuna, e a família simples de Leazinha não tinha condições de arcar com os custos.

A notícia se espalhou rapidamente pelo bairro. No início, houve murmúrios de preocupação — afinal, mesmo sendo uma peste, Leazinha era parte da vida de todos ali. Então, algo surpreendente aconteceu. Dona Odete, que sempre reclamava das travessuras da menina, foi a primeira a colocar dinheiro em uma caixinha improvisada na padaria da esquina. Logo, o Sr. João, dono da padaria, contribuiu com uma quantia generosa. Até o Seu Pedro, cujo carro já havia sido “decorado” com cola colorida por Leazinha, apareceu com um grandíssimo Pix.

Em poucos dias, o valor necessário para comprar o remédio estava completo. A mãe de Leazinha chorou ao receber o Pix de Dona Odete, que apenas disse: “Ela pode ser danada, mas é nossa danada.”

Com o tratamento adequado, Leazinha se recuperou aos poucos. Durante meses, ficou em casa, quietinha, observando pela janela o movimento do bairro que tanto amava. Quando finalmente recebeu autorização médica para voltar às atividades normais, ela não perdeu tempo. Na manhã seguinte, já estava aprontando com todos os seus queridos vizinhos!

Os moradores bufaram, reviraram os olhos e trocaram olhares resignados. Mas, no fundo, havia um sorriso escondido em cada rosto. Por mais que Leazinha aprontasse todas, eles sabiam que aquele coração agitado era, de alguma forma, também o coração deles. E ninguém conseguiria amá-la menos por isso.

E assim, a Rua das Margaridas continuou sendo palco das aventuras de Leazinha, a menina que todo mundo amava “odiar”.

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