Dexaketo

Simplesmente Gaiato

A Tia

Leazinha sempre viveu sozinha. Aos 35 anos, tinha construído uma rotina tranquila em seu pequeno apartamento na cidade. Acordava cedo, ia à padaria da esquina, trabalhava como costureira e passava as noites lendo ou assistindo filmes antigos. Sua vida era previsível, e ela gostava assim. Depois de um casamento breve e conturbado aos 20 anos, jurou nunca mais depender de ninguém.

Mas tudo mudou numa manhã chuvosa. A campainha tocou insistentemente, e quando abriu a porta, encontrou sua sobrinha, Clara, uma menina de 7 anos com olhos assustados e uma mochila surrada nas costas. “Tia, minha mãe foi embora”, disse a garotinha, trêmula. Leazinha soube naquele momento que sua irmã, Júlia, havia desaparecido sem deixar rastros, abandonando a filha.

No início, Leazinha se sentiu perdida. Não sabia cozinhar para uma criança, nem como ajudá-la com o dever de casa. O silêncio ao qual estava acostumada foi substituído por risadas e perguntas incessantes. Dormir cedo? Impossível. Clara tinha medo do escuro e precisava de histórias antes de pegar no sono.

Aos poucos, porém, Leazinha aprendeu. Descobriu que a felicidade podia estar no sorriso de Clara ao provar um bolo malfeito ou na forma como a menina segurava sua mão ao atravessarem a rua. Percebeu que criar alguém não era apenas cuidar, mas também aprender a amar de maneira nova.

Meses depois, enquanto observava Clara brincar no parque, Leazinha entendeu: a solidão que tanto prezava não era tão importante quanto o amor que agora enchia sua vida. Ela não escolheu ser mãe, mas descobriu que já era.

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