Na serra onde o vento assobiava entre os eucaliptos, Leazinha cresceu ouvindo o pai tocar viola caipira na varanda. Aos domingos, a casa de taipa virava palco: vizinhos chegavam com quitutes, e a menina, de cabelos enrolados e pés descalços, cantava modas de amor e saudade. Aos 16, a voz daquela morena tímida já ecoava além das montanhas. “Você nasceu pra brilhar, Leazinha”, dizia Dona Marta, a professora, emprestando-lhe discos de Elis e Milton. Foi ali que a semente brotou: Leazinha queria ser estrela.
A mala de vime trouxe pouco: duas saias, um caderno de letras rabiscadas e a viola do avô. São Paulo a engoliu com seus prédios cintilantes e buzinas. Passou a primeira noite na rodoviária, abraçada ao instrumento. No dia seguinte, alugou um cubículo na pensão da Madalena, ex-cantora de rádio que cochichou: “A cidade devora sonhos, menina. Cuidado!”
Ralou. De dia, empacotava pães numa padaria do Brás; à noite, batia perna em bares da Vila Madalena. Cantava por pratos de comida e trocados, enquanto alguns bêbados gritavam “Pagode!”. Chorou no banheiro do “Boteco do Chico” quando um homem cuspiu no chão durante “Asa Branca”. Mas Madalena a aconselhou: “Engole o choro e canta mais alto.”
O estalo veio num sábado chuvoso, no “Sarau da Frida”, boteco underground. Leazinha, de vestido florido e chinelos, subiu no palco de tábuas trêmulas. Quando dedilhou os primeiros acordes de “Cio da Terra”, o burburinho morreu. Sua voz, doce e áspera como caldo de cana, preencheu o silêncio. No fundo, um homem de barba grisalha parou o copo no ar. Era Benrardo, produtor de ilustres nomes da MPB.
“Você tem o ímã da dor e da delícia”, ele disse, oferecendo um disco independente. Leazinha gravou nas madrugadas, entre os turnos na padaria. O álbum Raízes de Asfalto mesclava toadas caipiras com batidas urbanas. A faixa “Menina da Serra” virou jingle de novela. De repente, estava no programa do Huck, nervosa, tropeçando nas palavras, mas cantando “Travessia” com uma urgência que fez o público calar.
Dez anos depois, ao receber o Grammy Latino, Leazinha Oliveira — agora de salto e vestido vermelho — dedicou o prêmio à menina que um dia fugira da seca interiorana. “Trouxe o sertão na garganta”, disse, erguendo a estatueta. Na plateia, Madalena soltou um “brava!” rouco, enquanto o pai e a avó, na Serra Verde, abraçava a velha viola e sorria, com lágrimas escorrendo pelo rosto ressecado de sol.
Leazinha nunca esqueceu o cheiro de terra molhada. Nem a promessa: todo mês de junho, volta pra cantar na festa do padroeiro, onde tudo começou.



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