A fila serpentava pelo corredor de doces, tão longa que Leazinha contou trinta e duas latinhas de refrigerante empilhadas antes de perceber que não estava sozinha. Bernardo, atrás dela, segurava um pacote de arroz e um sorriso tímido.
— Acho que vamos passar o Natal aqui — brincou ele, apontando para o caixa, onde uma senhora discutia o preço de uma manga.
Leazinha riu, e o som foi tão leve que Bernardo sentiu o coração acelerar. Enquanto o tempo esticava como chiclete, falaram de tudo: do cachorro que latia no carrinho do bebê à chuva que teimava em não cair. Ela confessou que comprava sorvete mesmo no inverno; ele admitiu colecionar embalagens de chocolate.
— Você acredita em amor à primeira vista? — perguntou Bernardo, corajoso, quando a fila deu seu primeiro passo.
— Acredito em amor antes do caixa aceitar meu cartão — respondeu ela, vermelha como os morangos em sua cesta.
Riram de nervoso e de encanto, enquanto o mundo ao redor sumia. O arroz de Bernardo caiu no chão, e ela ajudou a recolher, com os dedos se tocando mais que o necessário. Quando a senhora das mangas finalmente partiu, restavam apenas eles e o suspense de um “até logo”.
— Se eu te convidar para um café, você aceita antes ou depois de pagar as compras? — ele sussurrou, segurando a nota que a moça do caixa entregara.
Leazinha olhou para a fila que já não existia, para o sorvete derretendo em sua sacola, e para aquele estranho de olhos cheios de promessas.
— Antes — respondeu, entregando-lhe o número escrito no verso da nota fiscal.
E assim, entre latas de refrigerante e arroz no chão, nasceu um conto que nem o caixa mais lento do mundo seria capaz de apressar.



Deixe uma resposta