A tempestade rugia sobre a cidade de Salvador quando Lucas, 20 anos, decidiu caminhar até o terreiro abandonado no alto do morro. A chuva castigava seu rosto, mas ele precisava de respostas. Desde a morte da avó, sua única família, sentia-se perdido. Foi ela quem lhe contou histórias sobre Xangô, o orixá do trovão, da justiça e da virilidade. Agora, diante do altar desgastado pelas intempéries, Lucas acendeu uma vela vermelha e branca, oferenda tardia.
— Por que me deixou sozinho? — sussurrou, a voz perdida no vento.
Um raio cortou o céu, iluminando a figura imponente que surgiu entre as árvores. Xangô estava ali, vestido em trajes vermelhos e brancos, a coroa de pedra reluzindo sob o temporal. Seu olhar era fogo, mas havia uma calma ancestral em sua postura.
— Você não está sozinho — trovejou a voz do orixá, ecoando como um trovão distante. — A solidão é uma ilusão de quem não ouve o próprio coração.
Lucas estremeceu. Queria fugir, mas seus pés pareciam enraizados. Xangô aproximou-se, segurando um oxê, o machado de duas lâminas, símbolo de seu poder.
— Sua avó plantou sementes em você — continuou Xangô, apontando para o chão encharcado. — Olhe ao redor: mesmo na escuridão, a vida brota.
O jovem baixou os olhos, vendo pequenas flores brancas que cresciam entre as pedras. Lembrou-se das palavras da avó: “Xangô não dá as costas a quem tem coragem de encarar a tempestade.”
— Tenho medo de não ser forte o bastante — admitiu, a voz embargada.
Xangô riu, um som que sacudiu o ar como um raio.
— Força não é a ausência de medo, mas a decisão de seguir em frente. Você carrega meu axé, filho. A justiça que busca no mundo começa dentro de você. Equilíbrio… é isso que sustenta o universo.
Um novo raio iluminou o machado, que brilhou como um sol vermelho. Lucas sentiu um calor percorrer seu corpo, como se o fogo de Xangô queimasse suas dúvidas.
— Levante-se — ordenou o orixá, tocando seu ombro. — A tempestade passa, mas o céu permanece.
Quando Lucas abriu os olhos novamente, estava sozinho. A chuva cessara, deixando um arco-íris sobre o horizonte. No chão, ao lado da vela derretida, havia uma pedra de raio, um otá, símbolo de proteção.
Meses depois, enquanto ajudava a reconstruir o terreiro, Lucas sorriu ao sentir o cheiro de chuva no ar. Xangô não lhe dera todas as respostas, mas algo melhor: a certeza de que, mesmo nas noites mais escuras, o trovão trazia uma promessa de renovação.
E ele, enfim, estava pronto para ouvir.


Deixe uma resposta