Na varanda de um apartamento antigo no Meireles, com vista para o mar esverdeado de Fortaleza, três irmãs dividiam um mesmo colar de pérolas. Lucia, a loira de olhos azuis, herdara da mãe adotiva o amor pela decoração e pela pintura; Clara, negra de tranças altas, formou-se em gastronomia e aprendeu com seu pai a fazer música da melhor qualidade; Sofia, ruiva como fogo, trazia no sangue a inquietação que a levara a viajar o mundo e se formar em Turismo. As três, adotadas ainda crianças por Juan e Rosa, mexicanos que buscavam recomeço no Brasil, cresceram entre o cheiro de chili e o som do forró.
Os pais voltaram ao México quando Clara completou 25 anos, deixando-lhes apenas a padaria Pan de Vida e uma carta: “Cuiden uma das outras como cuidamos de vocês.” Agora, adultas, enfrentavam o mundo.
Lucia, aos 29, lutava contra a ansiedade. Seus quadros abstratos, cheios de azuis e amarelos, vendiam bem nas galerias da Aldeota, Benfica e Meireles, mas as noites eram longas e solitárias. Clara, 27, mantinha a padaria de pé, misturando pão de queijo com conchas mexicanas, enquanto sonhava em assumir um restaurante na Beira-Mar. Sofia, a caçula de 24, voltara de uma temporada na Europa sem diploma, carregando apenas histórias e uma gravidez inesperada.
Uma tarde, durante um temporal, encontraram-se na padaria. A chuva batia no vidro enquanto Clara amassava a massa com força. “Não vou aguentar outro mês de aluguel atrasado”, confessou, as mãos trêmulas. Lucia, que pintava um mural no fundo do salão, deixou o pincel cair. “Vou leiloar meus quadros”, ofereceu. Sofia, encostada no balcão, interveio: “Não. Vamos reformar a padaria. Transformar em um café cultural. Eu cuido do marketing, Clara dos quitutes e da música, Lucia decora com seu dom.”
Aos poucos, o lugar ganhou paredes coloridas, mesas com toalhas bordadas e noites de poesia. Lucia ensinava oficinas de arte, à tarde. Clara criou um menu fusion, e Sofia, grávida de seis meses, administrava as redes sociais com fotos que viralizavam. Além disso, no alto da noite, Clara esbanjava o seu talento musical, que tanto atraía jovens sedentos por arte para o “Point das 3 irmãs”
Na véspera do aniversário de casamento de seus pais, elas passearam no calçadão da Beira-Mar, como faziam na infância. “Eles devem está orgulhosos, acho que devemos fazer uma live com nossos pais amanhã”, sussurrou Clara. Lucia concordou. Sofia riu, a mão no ventre: “A próxima geração já vem a caminho.”
O mar avançava e recuava, como sempre, mas as três sabiam que nenhuma onda as separaria. Afinal, eram mais que irmãs, eram tudo, uma para outra.



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