Leazinha ajustou os fones de ouvido, tentando ignorar o olhar pesado de um homem sentado à sua frente. Era sexta-feira, e o ônibus 151 estava lotado, como sempre. Seus dedos tamborilavam no livro de química apoiado no colo, mas sua mente estava longe dali — nos últimos episódios de racismo velado na Universidade “Negra não devia estudar, devia limpar chão”, haviam riscado em sua mesa na semana passada. Ela respirou fundo, concentrando-se na música… até que a voz rouca do homem a alcançou:
— Cadê a gratidão, macaca? Não vai dar lugar pra idoso? Típico dessa gente preta! — Ele apontou para a plaquinha acima dos bancos, sorrindo com desdém.
Letícia engoliu seco. Ela não estava sentada nos assentos preferenciais. Antes que respondesse, outro passageiro interveio:
— Ela não está no lugar errado, senhor — disse um garoto magro, de óculos redondos e camisa xadrez. Segurava um celular, a tela ainda gravando.
O homem revirou os olhos. — Maldito dia que assinaram essa lei áurea, pois negro quando não caga na entrada, caga na saída— A palavra caiu como um soco.
Bernardo, o garoto de óculos, não baixou o celular. — Isso é Racismo. Já está registrado. — Sua voz tremia, mas firme.
A tensão explodiu quando o agressor tentou arrancar o aparelho. Leazinha reagiu, erguendo-se com uma força que surpreendeu até ela: — Você vai conhecer a delegacia, seu racista de merda! — A intervenção de outros passageiros isolou o homem até a chegada da polícia.
No depoimento, Bernardo mostrou o vídeo. — Ela estava certa. Eu testemunho. — Leazinha olhou para ele, vendo além do óculos e da timidez: havia ali um aliado.
Nos dias seguintes, Leazinha e Bernardo descobriram que estudavam na mesma universidade. Bernardo fazia computação; Leazinha, de Medicina.
Depois do triste incidente, os dois se perceberam e começaram a dividir o mesmo ônibus diariamente, conversando sobre tudo — dos livros de Toni Morrison às teorias de Stephen Hawking.
— Por que me ajudou? — ela perguntou, numa tarde no café do campus.
Ele corou. — Minha irmã é casada com um homem negro. Vejo o que ele sofre… Não podia ficar calado. — A honestidade aproximou-os mais.
O apoio mútuo floresceu. Leazinha o ensinou a lidar com a ansiedade antes das provas; Bernardo a apresentou ao mundo da astronomia. Em uma noite de observação de estrelas, Bernardo contou sobre seu pai racista, o distanciamento. Ela segurou sua mão, e algo mudou.
— Você vê aquela constelação? — ele sussurrou, apontando para Orion. — Dizem que ela une mundos diferentes. Como nós.
O amor surgiu em gestos: um guarda-chuva compartilhado, protestos antirracismo lado a lado, lágrimas enxugadas após um novo episódio de injúria. Até que, num ônibus vazio, sob a luz âmbar do fim de tarde, Bernardo confessou:
— Não quero ser só seu amigo, Leazinha.
Ela sorriu, enxergando nele o reflexo de sua própria coragem. — E eu não quero que seja.
Dois anos depois, o 151 nem existia mais, porém eles viviam juntos tudo o que o amor poderia superar e oferecer.
Fim.


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