Dexaketo

Simplesmente Gaiato

Um Dia Horrível para Leazinha

Leazinha acordou com o susto de um trovão. O despertador não tocou, e a prova na faculdade começava em 20 minutos. Escorregou do colchão, vestiu a primeira camiseta manchada que encontrou e saiu correndo sob chuva torrencial. O ônibus passou direto, deixando-a encharcada na parada.

Na faculdade, ao perceber que esquecera o material de apresentação, que dia ocorrer na primeira metade do dia, no quarto, o professor recusou adiar sua vez. Gaguejou diante da turma, ouvindo risos abafados. Na cantina, derrubou café na blusa branca. A mancha vermelha parecia rir dela.

À tarde, a encomenda do livro que esperava há semanas foi entregue ao vizinho, que viajara. No caminho de volta, tropeçou no meio da rua, rasgando a bermuda. Um ciclista buzinou, chamando-a de “desastrada”. Chorou escondida num banco de praça, com o celular descarregado.

Ao anoitecer, enfrentou ônibus errados até chegar em casa. A porta emperrou; a chave quebrou na fechadura. Desistiu, sentando na escada até o serralheiro chegar, cobrando o triplo pelo conserto.

Dentro do apartamento vazio, encontrou a gata Mila ronronando no sofá. Enrolou-se no cobertor, aqueceu sopa instantânea e ligou a TV, que travou na propaganda de um remédio para azar. Desligou tudo.

A chuva cessou. No silêncio, ouviu o tique-taque do relógio da sala, lembrando que o dia terminaria em breve. Mila deitou em seu colo, e ela afundou no sofá, massageando a própria têmpora.

“Talvez amanhã”, sussurrou, fechando os olhos.

Na escuridão, imaginou acordar com sol, encontrar a chave reserva, receber um e-mail de reposição da prova. Sonhou com o vizinho devolvendo o livro e o ônibus parando exato para ela.

Antes de adormecer, sorriu. O sofá cheirava a lar, e a gata aconchegava-se em seu peito. O relógio marcava meia-noite.

Amanhã seria outro dia.

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