Leazinha tinha doze anos, olhos grandes como luas cheias e um caderno onde anotava tudo que achava estranho. Desde pequena, notava coisas: o pai nunca comia na frente da família, evitava o sol como se fosse inimigo, e suas sombras pareciam se mexer sozinhas. Mas era só o pai dela, o Sr. Bernardo, quieto, pálido, de voz suave e cheiro de cravo.
Tudo mudou em uma noite de tempestade. A luz faltou, e Lea, com o caderno na mão, desceu até a biblioteca para procurar velas. Foi então que viu: o pai, diante do espelho antigo, sem reflexo. Ela arregalou os olhos. Ele girou devagar, surpreso, mas não assustado.
— Você viu, não viu? — perguntou, com um sorriso triste.
Leazinha não conseguiu falar. Só balançou a cabeça.
— Há cem anos eu vivo assim — disse ele, sentando-se na poltrona de couro. — Não sou um monstro, filha. Só… diferente. A noite é minha casa. O sol, meu inimigo. E o sangue… é o que me mantém vivo. Mas eu escolhi não machucar ninguém. Bebo de bancos, de doações de familiares humanos, de qualquer jeito que não cause dor.
Leazinha abraçou seu pai. O medo foi embora, substituído por uma estranha admiração.
— Por que nunca me contou?
— Por medo de que você me rejeitasse. De que me visse como um bicho da noite.
— Você é meu pai — disse ela, firme. — E eu anotei tudo no caderno. Agora sei que você é um vampiro. Mas também sei que acorda cedo pra me ver pegar o ônibus, que me faz chocolate quente quando chove, e que me abraça mesmo com mãos frias.
Bernardo sorriu com os caninos bem aparentes. Naquele momento, o trovão rugiu, mas dentro da casa, havia apenas silêncio e amor.
Na manhã seguinte, Leazinha desenhou um morcego no caderno, com um coração no peito e decidiu que, se um dia precisasse escolher entre o sol e a escuridão, caminharia ao lado dele, mesmo que fosse à sombra. Porque família não é só sangue — é escolha. E ela escolhera amá-lo, exatamente como ele era.



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