Leazinha respirava livros. Suas noites eram tecidas com legislações, editais e muito café. Cinco reprovações em concursos públicos haviam deixado suas pálpebras marcadas por olheiras persistentes, mas também por uma teimosia que herdara de Bernardo e Luiza, seus pais. Na quinta reprovação, chorou sobre a mesa de estudos, onde a foto deles sorrindo — ele, fiscal ambiental; ela, auditora financeira — a observava, imóvel.
Na manhã seguinte, ao consultar os resultados de outros 5 concursos que participou, a surpresa. Aprovada em todos! Fiscalização ambiental, auditoria, gestão educacional, trânsito e agente de cultura. O universo, irônico, devolvia em quinteto o que antes negara. Leazinha riu, depois tremeu. Como escolher? Cada cargo era um portal para uma vida diferente.
Passou dias imersa em listas de prós e contras, até que, ao reorganizar a estante, encontrou uma pasta empoeirada. Dentro, o diploma de Bernardo, manchado de terra, e o de Luiza, com anotações de orçamento nas margens. Lembrou-se das histórias: o pai levando-a para inspeções em rios, explicando cada espécie de árvore; a mãe, ensinando-a a decifrar planilhas à luz de velas durante apagões. Dois mundos, aparentemente opostos, que se fundiam no jantar, quando discutiam como a fiscalização ambiental dependia de recursos bem auditados para existir.
Naquela noite, Leazinha olhou os cinco editais e percebeu o fio que os unia: escolher um seria abandonar os outros, mas havia um cargo novo, recém-criado, que exigia experiência múltipla — Coordenadoria de Sustentabilidade e Recursos Públicos. A vaga pedia um profissional que entendesse de meio ambiente e finanças, alguém que visse a administração como um organismo interligado.
Bernardo e Luiza não tinham seguido carreiras iguais, mas complementares, como raízes de uma mesma árvore. Leazinha escreveu a carta de posse com as mãos suadas, certa de que, ali, seus cinco passados convergiriam. No primeiro dia, pendurou a foto dos pais em sua nova mesa. Eles continuavam sorrindo, agora em um lugar onde a terra e os números, finalmente, dialogavam.



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