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Simplesmente Gaiato

Leazinha, a Independente

Na movimentada São Paulo, entre arranha-céus e grafites, vivia Leazinha, uma jovem de 23 anos com olhos que brilhavam como faróis em noite escura. Dona de uma loja de roupas sustentáveis no bairro da Vila Madalena, ela costurava tecidos reciclados com a mesma maestria com que tecia sua liberdade. Seus dias eram marcados por feiras de arte, aulas de capoeira e noites debatendo feminismo em bares alternativos. “Minha vida é minha tela”, dizia, recusando-se a ser um esboço nas mãos dos outros.

Bernardo entrou em sua vida como uma brisa de verão: suave, mas irresistível. Conheceram-se em uma exposição de arte urbana, onde ele, um arquiteto de sorriso fácil, elogiou seu vestido feito de retalhos de guarda-chuva. “É como usar poesia”, disse ele, e Leazinha sentiu seu coração, pela primeira vez, bater compassos de samba. Os meses seguintes foram doces — jantares veganos, viagens de fim de semana a praias desertas, risadas abafadas contra o peito dele enquanto assistiam a filmes antigos.

A mudança foi gradual. Primeiro, foram comentários disfarçados de preocupação: “Esse decote vai atrair olhares demais, não acha?”, sussurrou ele em um jantar com colegas de trabalho. Leazinha riu, achando absurdo. Depois, veio a insistência para que diminuísse o ritmo da loja. “Você poderia delegar mais, amor. Assim teríamos tempo para planejar um futuro…”, sugeriu Bernardo, acariciando seu cabelo, enquanto ela fechava o caixa às 23h. A palavra “futuro” soava, agora, como uma gaiola de ouro.

O estopim foi em uma sexta-feira de chuva. Bernardo apareceu na loja com convidando-a para um jantar na família dele. “Precisamos conversar sobre aparências”, começou, evitando seu olhar. “Meu pai é conservador. Talvez você pudesse vestir algo mais… discreto, e falar menos sobre ativismo. Só desta vez.” Leazinha olhou para Bernardo com vontade de esgana-lo, lembrando-se de quando ele a admirarava justamente por sua voz altiva e suas roupas coloridas.

Ela sobe para o andar acima da loja, onde morava e sob a luz neon de seu apartamento decorado com pôsteres de Frida Kahlo, ela encarou o próprio reflexo no espelho. “Quem você escolhe ser?”. A resposta veio em forma de memória: Aos 15 anos, costurando bolsas com cortinas velhas para pagar um curso de design, jurando nunca dobrar-se à mediocridade alheia.

Ao romper o namoro, não houve drama. Encontrou Bernardo, que estava a esperando para ir ao jantar. Ela apareceu com a roupa do dia que o conheceu e falou:  “Você quer uma esposa ou uma estátua?”, questionou, servindo-lhe um último café. Ele tentou recuar, balbuciar desculpas, mas Leazinha o deu um abraço e encerrou aquela história.

Nos meses seguintes, sua loja ganhou uma página na Vogue Brasil. As peças “rebeldes com causa” viraram febre entre jovens que, como ela, recusavam-se a ser definidas por regras alheias.

Certo dia, ao passar pela galeria onde Bernardo a conquistara, viu seu rosto em um mural de mulheres inspiradoras. Sorriu, não por vaidade, mas por ver confirmado o que sempre soubera: liberdade não se negocia.

Quando o amor bater à sua porta novamente, Leazinha prometeu a si mesma, ele terá de aceitá-la inteira — tintas, sonhos, espinhos e asas. Até lá, dançaria sozinha, ao ritmo de sua própria revolução.

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