Dexaketo

Simplesmente Gaiato

A Eterna Amizade de Leazinha e Luiza

Luzia e Leazinha eram inseparáveis desde meninas. Cresceram na mesma rua, brincaram nas mesmas calçadas, dividiram segredos sob as cobertas em noites de sono coletivo e se tornaram mulheres lado a lado, como duas árvores que crescem juntas, mesmo com os ventos mais fortes.

Eram diferentes, mas complementares: Luzia era mais ousada, falante, dona de um sorriso que iluminava qualquer ambiente. Leazinha era mais contida, observadora, com uma voz suave e olhos que pareciam enxergar almas. Juntas, formavam um equilíbrio perfeito — o fogo e a água, o movimento e a calma.

Quando Leazinha conheceu Bernardo, tudo mudou… e nada mudou, ao mesmo tempo. Ele era gentil, atencioso, apaixonado por literatura e tinha um jeito manso que encantou Leazinha. A amizade das duas continuou firme, mesmo com o namoro. Bernardo até se tornou parte desse trio improvável — ia com elas ao cinema, jantava na casa de Luzia, riam juntos como se fossem irmãos.

Mas não foi isso que aconteceu.

Certa noite, durante uma festa de aniversário de um amigo em comum, Luzia e Bernardo beberam demais. O abraço demorou alguns segundos a mais. Uma conversa íntima rolou entre risos e confissões. E, num canto escuro da cozinha, eles se beijaram e não pararam por ali.

Leazinha descobriu dias depois, quando Bernardo, tomado pela culpa, confessou tudo. O mundo dela desmoronou. A dor da traição vinha em ondas: às vezes fria, às vezes quente, sempre cortante. Ela chorou sozinha, gritou dentro do banho, delotou fotos e até desativou sua conta no instagram. Mas não falou com Luzia. Não podia.

Por semanas, evitou a antiga amiga. Até que Luzia apareceu na sua porta, com lágrimas nos olhos, arrependimento estampado no rosto. Quis explicar, pedir perdão, dizer que havia sido um erro de bêbado, um momento de fraqueza. Leazinha ouviu em silêncio, sem deixá-la entrar.

— Você foi minha irmã — disse, com a voz embargada. — E me machucou como ninguém nunca fez.

A partir daquele dia, o caminho delas se dividiu. Luzia tentou reconstruir sua vida longe da sombra da culpa. Muitas vezes, pensava em como pôde ser tão tola.

Anos se passaram.

Luzia se mudou para outra cidade, estudou psicologia e se especializou em terapia de relacionamentos. Em suas sessões, via reflexos da própria história: pessoas que traíram, que foram traídas, que perderam amigos, que precisaram aprender a perdoar.

Leazinha virou professora. Encontrou um novo amor, João, um homem paciente e sincero. Tiveram filhos, construíram uma vida leve, cheia de pequenas alegrias. Mas, por vezes, lembrava-se de Luzia. Sentia falta daquela energia contagiante, da risada alta, da forma como ela sabia ouvir sem julgar.

Um dia, numa feira de livros, as duas se encontraram por acaso. Era estranho, mas familiar. Hesitação, um sorriso tímido, um abraço inesperado. Conversaram horas, sentadas num banco de praça próxima, bebendo café e relembrando histórias antigas. Nenhuma das duas mencionou Bernardo. Nem precisava.

Com o tempo, começaram a se ver com mais frequência. Primeiro, só em eventos casuais. Depois, combinavam almoços, iam ao cinema, compartilhavam músicas no WhatsApp. A confiança voltou aos poucos, como uma flor que renasce após o inverno.

Não foi fácil. Houve momentos de tensão, de recordações dolorosas. Mas ambas entenderam que o passado faz parte da gente, mas não precisa definir quem a gente é. Que a amizade, mesmo ferida, pode cicatrizar mais forte do que antes.

Hoje, Luzia e Leazinha estão juntas novamente, não como quem esqueceu o que houve, mas como quem escolheu continuar. Entre elas, há uma certeza: que a vida dá voltas, sim, mas nem sempre para machucar. Às vezes, apenas para mostrar que vale a pena recomeçar.

E, em meio a tantas curvas, elas redescobriram algo simples, profundo e eterno:

Que são amigas. Para sempre. Ever… Ever…

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