Leazinha e João estavam juntos há sete anos. Sete anos de brigas, ciúmes doentios, palavras cortantes e reconciliações que pareciam mais com rendições. Ela já não se lembrava da última vez que havia dormido sem chorar por causa dele. João a fazia sentir-se pequena, insignificante, como se o amor fosse uma prisão onde ela deveria cumprir pena por um crime que nem sabia ter cometido.
Bernardo vivia situação semelhante ao lado de Luiza. Namoravam há cinco anos e, nesse tempo, ele havia perdido a conta das traições. Cada semana era uma nova desculpa esfarrapada, uma mentira bem ensaiada. Mesmo assim, Bernardo ficava. Não por amor, mas por medo — medo da solidão, da mudança, de recomeçar sem saber se seria melhor.
Foi num bar qualquer, numa noite qualquer, que Leazinha e Bernardo se encontraram. Os olhares se cruzaram primeiro, como flechas lançadas ao acaso. Depois vieram as conversas, os sorrisos tímidos, os toques leves e propositalmente descuidados. Logo, eles se viam sempre, às escondidas, como dois pecadores buscando redenção na própria queda.
Era um amor intenso, quase violento em sua sinceridade. Tudo neles gritava urgência: os beijos, os abraços, as palavras ditas à meia-voz entre lençóis suados. Mas também vinha acompanhado de culpa. Eles se sentiam errados, fracos, indignos. Como podiam amar tanto alguém enquanto magoavam outros?
— Eu não sei se posso deixar tudo pra trás — confessou Leazinha certa noite, a cabeça apoiada no peito de Bernardo.
— Eu também não sei — respondeu ele, acariciando seus cabelos. — Mas sei que quando estou com você, não preciso fingir ser feliz.
A cada encontro, a consciência pesava mais. Leazinha via João deprimido, distante, quase esperando que ela o abandonasse. Bernardo notava Luiza cada vez mais fria, como se ela soubesse de tudo e apenas aguardasse o momento certo para puni-lo.
Então, veio a decisão. Não combinada, não planejada. Foi um gesto quase simultâneo. Leazinha terminou com João numa tarde chuvosa, sem drama, sem promessas vazias. Ele aceitou com surpreendente calma, como quem vê cair a última folha de uma árvore morta.
Bernardo fechou seu relacionamento com Luiza com uma mensagem curta: “Acabou.” Sem explicações, sem justificativas. Ela respondeu com uma série de mensagens cheias de ódio, depois silêncio. O fim, para ambos, foi doloroso, mas necessário.
Reencontraram-se dias depois. Sem pressa, sem segredos. Agora, frente a frente, diante de um futuro incerto, mas verdadeiro.
— Você acha que vamos nos arrepender? — perguntou Leazinha, segurando sua mão.
— Talvez — respondeu Bernardo, sorrindo. — Mas pelo menos será por escolha nossa.
Começaram devagar. Reconstruíram suas vidas lado a lado, limpando feridas antigas, aprendendo a confiar novamente. Não foi fácil. Havia cicatrizes, mágoas, momentos de insegurança. Mas havia também um desejo genuíno de fazer diferente, de construir algo limpo, justo.
Com o tempo, entenderam que não foram vilões, nem heróis. Foram humanos cansados de dor, buscando um pouco de luz. E talvez, só talvez, o amor não fosse perfeito, mas real.
Era isso que importava: poder amar sem mentiras, sem prisões, sem sombras do passado sufocando o presente.
Leazinha e Bernardo seguiram juntos, não porque eram salvadores um do outro, mas porque decidiram, juntos, parar de se destruir. E, na simplicidade dessa escolha, encontraram o verdadeiro começo de tudo.



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