Dexaketo

Simplesmente Gaiato

“O Amor que Não Sabia Amar”

Bernardo era o tipo de cara que lia Machado de Assis para entender o que era o amor e ainda assim não entendia nada. Dizia-se apaixonado por poesia, mas só se apaixonava por sanduíches de mortadela. Tinha um coração grande, mas parecia um cofre trancado com cadeado de ferro. Mulher nenhuma conseguia abri-lo.

— Eu sou muito complexo — dizia ele, com ares de herói romântico, enquanto bebia cerveja com os amigos.

— Complexo é seu pé que fede dentro do sapato — retrucava seu amigo João.

Bernardo tentava paquerar com frases prontas do Paulo Coelho, mas as mulheres fugiam como se ele tivesse escrito um livro chamado “A Arte de Estragar o Clima em 5 Minutos.”

Foi então que Leazinha entrou em sua vida. Literalmente. Ela trombou com ele na fila do banco e, ao invés de pedir desculpas, disse:

— Uau, que cara mais… cara.

Bernardo, que não estava esperando elogio algum, ficou sem graça. E, por incrível que pareça, isso o fez parecer humano.

Começaram a conversar. Leazinha falava rápido, ria alto e tinha um jeito de olhar que parecia ler a alma. Bernardo, pela primeira vez, não sabia o que dizer. Ficou mudo. E, por coincidência, foi nesse momento que Leazinha sorriu e disse:

— Você parece aquele personagem de José de Alencar… como é o nome? Inocência! Isso! Você tem cara de Inocência!

Bernardo, sem entender o elogio, sorriu como um bobo.

Os dias foram passando, e Bernardo passava mais tempo pensando em Leazinha do que em por que o céu é azul. Quando a via, seu coração acelerava, e ele não sabia se era amor ou se era azia de tanto café.

— Leazinha é como se Graciliano Ramos tivesse escrito uma comédia romântica — pensava Bernardo, já sem graça de si mesmo.

Ela era imprevisível, cheia de vida e tinha um jeito de falar que misturava modernidade com receita de bolo.

— Você precisa aprender a amar — disse ela, certa vez, olhando-o nos olhos.

— Eu sei amar… amo meu time, amo meu cachorro, amo meu…

— Isso não é amor, Bernardo. Isso é apego.

Foi então que Bernardo decidiu mudar. Começou a ouvir Leazinha, a prestar atenção nela, a rir das suas piadas ruins, a entender que amar não era um dever de casa, mas uma escolha diária.

Um dia, em frente ao prédio dela, Bernardo, com voz trêmula, disse:

— Leazinha, você é como aquele verso de Rachel de Queiroz… “Quando a gente ama, ama-se sem perguntar por quê.”

Ela sorriu, o beijou e sussurrou:

— Agora você entendeu.

E Bernardo, enfim, aprendeu a amar. E, ironicamente, aprendeu isso com uma cearense que não sabia que era a chave do seu coração.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

categorias

subscribe to my blog