Bernardo tinha 23 anos, um sorriso que conquistava a mulher que ele desejasse e um guarda-roupa caro o suficiente para impressionar qualquer uma. Criado em berço de ouro, cresceu com a ideia de que as coisas vinham prontas, inclusive as pessoas. Era conhecido entre os amigos como o “playboy perfeito”: carro importado, apartamento na Beira-Mar, festas constantes e conquistas fáceis.
Leazinha entrou na vida dele numa sexta-feira chuvosa, durante uma rave. Tinha apenas 18 anos, cabelos castanhos encaracolados e olhos famintos de amor. Ela não era como as outras — não ria alto, não se jogava nos braços dele por causa do nome ou do dinheiro. Isso despertou nele algo novo: desejo de conquista.
— É só mais uma menina ingênua — ele disse aos amigos enquanto a observava dançar com naturalidade, sem tentar chamar atenção. — Vou fazê-la minha até domingo.
E assim começou o jogo. Bernardo usou todas as suas armas: mensagens românticas, jantares refinados, elogios bem colocados. Leazinha não resistiu e cedeu. Não parecia apaixonada, mas estava ali, sempre disponível, sempre gentil. Bernardo, convencido, passou semanas alimentando o ego com frases como:
— Eu faço o que quero com ela. Ela vem quando eu chamo.
Leazinha nunca falava sobre sentimentos. Nunca pedia nada além do momento presente. Sorria, beijava, saía, sumia… e voltava. Sem cobranças, sem ciúmes. Bernardo via aquilo como domínio total. Na verdade, era indiferença disfarçada de liberdade.
Até que, certo dia, ela simplesmente parou de responder às mensagens. Sumiu por uma semana inteira. Bernardo ficou inquieto. Preocupado. Ligou, mandou flores, escreveu poemas nas redes sociais. Os amigos riam:
— Relaxa, cara. Ela volta. Você é Bernardo, afinal.
Mas Leazinha não voltou. Até que ele a encontrou num café, sorrindo ao lado de outro rapaz. Foi como levar um soco no estômago.
— O que está acontecendo? — perguntou, tentando manter a calma.
Ela o encarou como quem vê um velho conhecido, sem saudade.
— Estou feliz, Bernardo. Só isso.
— Mas… você me usou?
Ela sorriu com ironia.
— Você achou mesmo que era o caçador? Nós dois sabemos quem realmente esteve sob controle aqui.
Bernardo sentiu o rosto arder. As palavras machucavam mais que qualquer atitude fria.
— Por favor… não vai embora.
— Desculpa — ela disse, já se levantando. — Mas eu terminei com o que não queria desde o começo.
E antes de ir, virou-se uma última vez:
— Você é um playboy idiota. Um ótimo passatempo. Nada mais. Gostoso, mas apenas isso, um pedaço de carne, que usei para o meu prazer, que agora descarto, sem nenhum receio. Você é fútil, fraco, mesquinho e dependente do que seus amigos pensam de ti. Um lixo. Foi um prazer brincar com você. Aliás, não se sinta ofendido, o que aconteceu entre a gente foi mera reparação histórica.
E assim, ela foi embora. Ele ficou ali, parado, com o coração partido e com o orgulho em pedaços. Pela primeira vez, ele percebeu que o brinquedo era ele.
Naquele dia, Bernardo aprendeu: nem todo mundo se deixa seduzir pelo brilho. Alguns só estão ali para mostrar que, por trás do charme, há um homem como qualquer outro — vulnerável, humano.
Mas assim, ele era um porqueira mesmo.


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