Dexaketo

Simplesmente Gaiato

Amor em São João das Lupranas

Leazinha era filha do coronel Estácio, dono das terras mais férteis de São João das Lupranas. Bernardo, descendente de operários da lavoura, cresceu entre cacau e promessas de futuro incerto. Seus olhares se cruzaram na feira livre, entre cestos de manga e canções de viola. Foi um amor que nasceu como o vento: leve, mas impossível de segurar.

João, irmão de Leazinha, logo percebeu a mudança na irmã — os olhos brilhavam demais, os passos eram mais lentos ao voltar para casa. Luiza, irmã de Bernardo, por sua vez, temia que o irmão perdesse tudo por uma paixão sem futuro. Unidos pelo medo, João e Luiza urdiram um plano cruel: espalhariam boatos sobre Bernardo, dizendo que ele pretendia fugir com a herança da moça, levando-a para viver na miséria.

As línguas da cidade não tardaram a se mexer. O coronel Estácio proibiu a filha de sair. Bernardo foi ameaçado por capangas mascarados. A separação parecia iminente.

Na noite anterior à partida forçada de Bernardo, os dois se encontraram às margens do rio Cachoeira. Choraram, juraram amor eterno. Leazinha entregou-lhe uma pulseira de ouro, presente da mãe falecida. “Volta por mim”, sussurrou.

Dias depois, Bernardo desapareceu. Dizem que embarcou num trem sem destino certo. Leazinha, arrasada, recolheu-se ao silêncio.

João e Luiza celebraram seu triunfo. Mas a paz não durou.

Anos depois, um homem misterioso chegou a São João das Lupranas. Usava roupas simples, mas seus modos eram nobres. Montou uma livraria modesta, perto da igreja. As pessoas comentavam: havia algo familiar naquele olhar.

Foi então que Leazinha entrou na livraria. Reconheceu-o pela pulseira em seu pulso — ele a usava como lembrança de um amor que nunca morreu. Bernardo voltara, não para reatar o passado, mas para revelar a verdade: jamais aceitara ir embora. Fora drogado e levado por homens pagos por João e Luiza.

A cidade inteira soube. João fugiu. Luiza, arrependida, pediu perdão diante do cais, onde Bernardo e Leazinha se reencontraram sob o sol nordestino.

O final, porém, não foi como o esperado.

Bernardo, inspirado nas palavras de Jorge Amado em Capitães da Areia, decidiu não ficar:

“O amor é como o vento: você não vê, mas sente.”

E partiu novamente, deixando Leazinha com a certeza de que alguns amores são eternos, mesmo que não sejam vividos todos os dias.

E assim, em São João das Lupranas, o amor proibido virou lenda.

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