Leazinha ajustou o crachá com seu nome sobre o avental azul, sentindo o peso das moedas no bolso e o cheiro de plástico novo do caixa. Aos 18 anos, aquela manhã no Mercado Seu José era seu primeiro passo no mundo adulto. A promessa de ajudar a mãe com as contas a motivara, mas as mãos suavam ao lembrar o treinamento: “Nunca discuta com o cliente”, repetira o supervisor, apontando para a máquina registradora como se fosse um quebra-cabeças.
O primeiro cliente foi um senhor com um pão francês. Leazinha sorriu, mas os dedos tremiam ao digitar o código 502. A máquina apitou, recusando-se a aceitar a tecla. Uma fila começou a se formar. “Menina, tá demorando!”, alguém reclamou. O supervisor correu para ajudá-la, mas seu riso nervoso não disfarçou o constrangimento.
As horas se fundiram em rostos impacientes. Uma senhora exigiu que cada maçã fosse pesada separadamente, reclamando dos preços. Leazinha mordeu a língua ao ouvir: “Na minha época, jovens sabiam trabalhar!”. Quando uma moeda de cinquenta centavos caiu no chão, ela se abaixou rápido demais, batendo a cabeça no balcão. Riu para não chorar.As pernas queimavam de ficar em pé, e o barulho das esteiras parecia amplificado. Um homem com uma cerveja soltou um suspiro dramático ao ver o preço. “Errou de novo, não é 4,99?” Ele estava certo. Ela corrigiu, mas a voz embargou ao pedir desculpas. A fila murmurava, um bebê chorava. Seus dedos, antes ágeis, pareciam de chumbo.
Um homem com uma cerveja soltou um suspiro dramático ao ver o preço. “Errou de novo, não é 4,99?” Ele estava certo, mas a culpa era do computador. Ela chamou o garoto que ajustava os preços nas prateleiras, e então, corrigiu, mas a voz embargou ao pedir desculpas. A fila murmurava, um bebê chorava. Seus dedos, antes ágeis, pareciam de chumbo.
No último cliente, momentos antes da troca de turno, uma senhora idosa colocou uma lata de leite condensado e um buquê de margaridas no caixa. “É para meu neto, ele adora brigadeiro”, sorriu. Leazinha, exausta, digitou o código errado. A mulher, percebendo o erro, inclinou-se e sussurrou: “Respire, querida. Ninguém nasce sabendo.” As palavras vieram quentes, como um abraço. Ela digitou novamente e deu tudo certo.
Ao fechar o caixa, Leazinha contou o dinheiro com cuidado. Havia faltado R$ 5, mas o supervisor apenas anotou: “Amanhã será melhor.” No caminho para casa, ela murmurou pelos próprios erros, mas guardava a fala da última cliente como um lema para os dias seguintes. Agora, era chegar em casa, pegar os livros e estudar para o ENEM no fim do ano, ela iria passar dessa vez.
No dia seguinte, Leazinha trouxe um colchonete para os pés e não errou nenhum dos códigos dos legumes. Os clientes ainda reclamavam, mas ela aprendera que tem clientes que saem de casa só para brigar, palavras da colega de cargo do caixa ao seu lado. Agora, ela estava mais calma e fez um ótimo dia de trabalho, e assim seria, até o último dia dela como Caixa.


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